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sexta-feira, 23 de maio de 2008

O caso Wachusett

HISTÓRIA
O caso Wachusett
Guilherme Poggio

A Questão Christie é, sem sombra de dúvida, o exemplo clássico de uma situação grave de crise externa na História do Brasil relacionada com o Poder Marítimo em tempo de paz. Mas está longe de ser o único caso. Entre 1861 e 1865 os EUA travaram um conflito interno com reflexos mundiais. No Brasil, esses reflexos foram duramente assimilados pela diplomacia.

Um país desigual

Até a segunda metade do século XIX os Estados Unidos eram um país historicamente desigual. Pouco depois da sua independência em 1776, a Nova Inglaterra e outros estados do norte/nordeste industrializaram-se rapidamente. Além disso, a indústria se diversificava e um de seus segmentos mais prósperos era a construção naval. Ironicamente, uma boa parte das encomendas dos estaleiros do norte vinha dos estados do sul, que realizavam comércio negreiro com a África. A mão-de-obra escrava era um dos pilares da economia agrária dos sulistas, grandes plantadores de algodão.


Não interessava aos estados do norte fortalecer a economia dos plantadores sulistas, pois isto aumentava o poder de barganha destes últimos junto às fábricas do norte que processavam o algodão e o transformavam em produto manufaturado. Estes produtos, por sua vez, não podiam ser vendidos para os estados do sul, pois o regime escravista barrava a ampliação do mercado consumidor.

Partida do 8º regimento da União para o combate. A guerra civil expôs as várias contradições sociais dos EUA, fruto de um desenvolvimento desigual.
A situação entre as duas regiões era bastante tensa em 1860 e foi agravada com a eleição do republicano Abraham Lincoln como presidente dos EUA. Lincoln, assim como boa parte dos cidadãos do norte, era um ferrenho abolicionista. Em dezembro daquele ano a Carolina do Sul tornou-se o primeiro estado a sair da União. Logo ela foi acompanhada por outros cinco estados. Ao todo 11 dos 15 estados escravagistas declararam secessão da União, e criaram um novo país denominado "Estados Confederados da América". Em 12 de abril de 1861 forças confederadas atacaram o Fort Sumter, um posto militar americano na Carolina do Sul. Começava assim a Guerra Civil Americana.

As relações Brasil - Estados Unidos

Toda a pressão exercida pela Inglaterra sobre o Brasil era, até certo ponto, amenizada pela atitude "compreensiva" e flexível do Governo dos EUA. Essa atitude melhorou parcialmente as desconfianças que a classe dominante do Brasil tinha em relação à participação dos norte- americanos nos movimentos separatistas no Brasil entre o final do século XVIII e início do século XIX, encerrandos com a Confederação do Equador em 1824.

A partir desta época, os laços entre os dois países estreitaram-se e os EUA passaram a exercer uma presença discreta, porém crescente, no mercado brasileiro. Suas manufaturas ganhavam mercado por aqui e técnicos norte-americanos participavam de projetos ingleses como a própria ferrovia D. Pedro II. Soma-se a este quadro o crescente consumo de café brasileiro nos EUA.

Mas o relacionamento político começou a entrar em crise por volta de 1840. Por um lado, os interesses norte-americanos no Prata contrariavam, em algumas situações, a posição brasileira. Por outro, a política em relação ao tráfego negreiro sofreu modificações e as medidas restritivas adotadas pelos EUA atingiram em cheio a elite brasileira.

Atitudes precipitadas não eram as mais indicadas, e existiam fortes motivos econômicos para tal. As exportações de café para os EUA cresceram em ritmo vigoroso e a partir de 1850, uma década antes da Guerra Civil Americana, os norte-americanos já eram o maior comprador do principal produto brasileiro. Começava assim um longo ciclo de dependência econômica, embora a primazia do capital britânico permanecesse no Brasil até a I Guerra Mundial.

A Guerra Civil Americana, iniciada em 1861, colocou em cheque o futuro da mão-de-obra das lavouras no Brasil. Caso os estados Confederados perdessem a guerra, o Brasil ficaria isolado internacionalmente enquanto formação social escravista. Por outro lado, a maior parte das exportações de café seguia para os consumidores livres dos estados do norte. O mais recomendável era a adoção de uma posição diplomática neutra em relação ao conflito.

Medidas adotadas

Neutralidade. Esta era a regra adotada pelo Brasil diante dos conflitos entre os "Estados Confederados" e o governo da União. Para isso, o país recorreu a uma prática internacionalmente aceita naquela época, adotada inclusive pela Grã Bretanha. Passou a tratar os Estados Confederados com o título de "beligerantes", colocando-os assim em pé de igualdade com o governo dos Estados Unidos (a União).

Era previsível que a escalada dos combates se estendesse pelos mares e, como conseqüência, os navios de ambas as partes buscariam refúgio em portos brasileiros. De imediato foram definidos procedimentos para orientar as ações das autoridades brasileiras

Em 1º de agosto de 1861, os presidentes das províncias marítimas receberam instruções do governo de Sua Majestade sobre os princípios gerais de neutralidade. A princípio houve reclamação por parte do embaixador dos EUA no Brasil, uma vez que este representava a União e seu presidente democraticamente eleito. Mas coube ao Governo de Sua Majestade contornar estas argumentações sempre que as mesmas voltavam à cena e declarar a mais prefeita igualdade de tratamento entre as partes beligerantes. Dentre as principais diretrizes adotadas estavam:

A utilização dos portos nacionais pelos navios beligerantes para a obtenção de todos os artigos e gêneros necessários para prosseguirem sua viagem ;

A permanência dos navios nos portos segundo os prazos estabelecidos pelos presidentes das províncias;

A proibição absoluta da utilização dos portos como base para ações militares, venda dos produtos oriundos da captura e aprisionamento de outras embarcações combatentes e obtenção de socorro ou armamento de qualquer natureza com o propósito de hostilizar o inimigo fora do mar territorial.

O ministro dos negócios estrangeiros ainda enviou um Aviso aos ministros da Marinha, da Guerra e da Justiça. Datado de 4 de agosto de 1861, fragmentos do texto do Aviso encontram-se reproduzidos abaixo.


"(...) Sua Majestade o Imperador, attendendo aos interesses do commércio de seus subditos, e desejando observar uma restrícta neutralidade durante a guerra que infelizmente existe entre os Estados Unidos e os Estados Confederados da América, houve por bem, de conformidade com as princípios do direito internacional, adotados no Império em circunstâncias análogas, ordenar que fosse dirigida aos presidentes das províncias do norte do Império a circular inclusa por cópia.
Se bem não reconheça o governo imperial a existência política dos Estados Confederados, não lhes pode, no entanto, recusar o direto de belligerantes, e é este o pensamento daquella circular.

De acordo com este pensamento, rogo a V. Ex. haja de expedir as convenientes ordens e instruções às autoridades d Império, que lhes são subordinadas. (...)"


Os primeiros "visitantes"

As diretrizes foram testadas na prática no mês seguinte. No dia 1º de setembro o vapor de guerra CSS Sumter, pertencente à armada dos Estados Confederados, chegou ao porto do Maranhão. Este solicitou o abastecimento com "carvão de pedra", que foi prontamente fornecido. O mesmo deixou o porto no dia 15 sob protesto do cônsul norte-americano, acusando o país de quebra de neutralidade. Protesto este não atendido pelo auditor de marinha.

CSS Sumter escapando do bloqueio imposto pela União aos portos confederados (30 de junho de 1861). O Sumter foi um dos navios confederados que mais se destacou, afundando 18 navios mercantes em 1862.
Uma semana depois chegou ao mesmo porto o vapor de rodas USS Powhatan da União também com o propósito de abastecer-se de carvão. Na sua partida no dia 28, o comandante Porter deixou um oficio reforçando o protesto do cônsul. Por pouco um conflito naval não aconteceu no porto do Maranhão. No ano seguinte não foram registrados eventos desse tipo nos portos brasileiros.

O ano de 1863 começara de forma ruim para o Brasil. O triste episódio do apresamento de mercantes brasileiros por navios ingleses, fruto da "Questão Christie", ainda não havia terminado e as relações entre o Brasil e a Inglaterra estavam bastante abaladas. Para piorar o quadro diplomático, embarcações confederadas passaram a procurar portos do Nordeste nos meses de abril e maio, provocando protestos dos representantes norte-americanos.

O CSS Florida chegou a Pernambuco no dia 8 de maio. Seu objetivo não era apenas realizar reparos no maquinário e se abastecer de carvão, mas também de desembarcar a tripulação do vapor norte-americano apresado Clarence e vender os pertences capturados nas ruas da capital da província.

Já o CSS Georgia aportou na Bahia no dia 12 do mesmo mês quase simultaneamente com o mercante inglês Castor, acusado de suprir os confederados e auxiliá-los no trabalho de logística. O cônsul norte-americano instalado na Bahia protestou junto ao Governo brasileiro informando que foi "publicamente observado que [o mercante Castor] conduzia também duas peças de 125 libras e outras munições de guerra", faina esta realizada durante a noite. Um flagrante caso de desrespeito aos princípios de neutralidade estabelecido pelo próprio governo Imperial. Mas este caso foi de menor importância perto das ações do CSS Alabama.

O temido CSS Alabama, que havia afundado o USS Hatteras e feito várias vítimas mercantes no Atlântico Norte (ver texto abaixo), passou a agir na costa brasileira por volta de abril de 1863, utilizando a ilha de Fernando de Noronha como base para suas ações. Essa informações chegaram até o presidente da província de Pernambuco através das tripulações dos navios apresados, que foram levados ao Recife por um mercante brasileiro. Ao todo seis navios pertencentes à União foram aprisionados. Destes, dois foram incendiados e toda a carga apreendida.


De imediato, o presidente da província instaurou um inquérito para averiguar o ocorrido. Questionado sobre as atividades do vapor de guerra confederado, o comandante do presídio de Fernando de Noronha foi sumariamente destituído de seu cargo, além de responder a um processo de responsabilidade. As investigações descobriram que o comandante do presídio tinha conhecimento das atividades do Alabama; que a tripulação deste desembarcou várias vezes na ilha abastecendo-se de objetos diversos e que tanto os eventos de captura como o do incêndio dos mercantes ocorreram em águas territoriais brasileiras. Mas acima de tudo, o comandante do presídio "desconhecia os deveres de sua posição", pois nem sequer "protestou contra os atos praticados pelo Alabama".

O presidente da província de Pernambuco encaminhou no dia 27 de abril um solene protesto ao capitão do Alabama pelos seus "desacatos e ofensas à soberania e direitos do Império" e que o mesmo estava intimado a deixar as águas territoriais brasileiras em 24 horas. Quando esta comunicação chegou à Fernando de Noronha, o navio confederado já não se encontrava mais ali.

No dia 11 de maio o Alabama aportou na Bahia e o presidente daquela província comunicou ao comandante da embarcação confederada do completo "desagrado" que as ações atribuídas a ele haviam causado. Porém, o presidente não foi além dessa comunicação. O inquérito feito pela província de Pernambuco foi concluído no dia 13 de maio, mas o Alabama deixou o porto duas semanas depois sem que ações concretas tenham sido tomadas.

Diversos navios confederados destacaram-se por seus feitos, mas o mais famoso de todos foi o vapor CSS Alabama. Construído por encomenda ao estaleiro John Laird Sons and Company de Liverpool (Inglaterra), o Alabama foi lançado ao mar em 24 de agosto de 1862 com o nome Enrica. Deslocava 1050 toneladas e possuía um armamento composto por seis canhões de 32 libras, um de 68 libras e um de 110 libras.

Sob o comando do capitão Raphael Semmes, o Alabama passou os dois anos seguintes capturando e destruindo navios por todo o Atlântico. No seu primeiro ano, nada menos que duas dúzias de mercantes norte-americanos trafegando pelo Atlântico Norte em direção à Europa foram capturados ou queimados.

Pouco depois do ano novo, o Alabama acabou encontrando o USS Hatteras próximo da cidade de Galveston, Texas. De forma ardilosa, o navio confederado aproximou-se do Hatteras exibindo a bandeira da marinha britânica. Atacando primeiro e dispondo de armamento mais poderoso o Hatteras não teve chance de um contra-ataque eficaz e acabou a fundando em 11 de janeiro de 1863.

O Alabama ainda navegou por todo o Atlântico Sul ao longo de 1863, incluindo a costa oeste da África e a costa brasileira. Depois de passar pela Cidade do Cabo (África do Sul) rumou para as Índias Orientais e durante sua patrulha de seis meses afundou mais sete embarcações. Retornou à Cidade do Cabo e seguiu para a Europa realizar reparos de maiores proporções.

Em junho de 1864 o Alamaba chegou ao porto francês de Cherbourg para realizar reparos no casco e no maquinário. O pedido de Semmes para que o navio fosse docado foi negado e os devidos reparos não foram feitos. No porto, Semmes recebeu a informação de que o USS Kearsage o esperava em águas abertas. Prevendo um possível bloqueio do porto com a chegada de outros navios da União, Semmes decidiu levar o Alabama para o mar e enfrentar o Kearsage.

O Alabama tomou a iniciativa do combate e passou a disparar de longe. O Kearsage aguardou até que a distância fosse inferior a 1000m. Aproximando-se de direções opostas e descrevendo ambos uma trajetória circular, cada um dos navios tentou cruzar a proa de seu oponente. Após uma hora e dez minutos de combate, quando a distância entre eles era de aproximadamente 500m, o Kearsage disparou uma salva mortal sobre o Alabama, afundando-o.


Durante os seus 22 meses de carreira o Alabama disseminou terror e devastação na frota mercante dos Estados Unidos. Dos 447 navios abordados, 65 pertenciam à União e foram capturados. O resultado das atividades de corso renderam aproximadamente 2000 prisioneiros e da tripulação de 120 praças e 24 oficiais, nenhum deles faleceu a bordo do navio por acidente ou doença.


A melancólica conclusão do "episódio Alabama" foi seguida por uma dura nota divulgada pela embaixada dos EUA em 6 de julho de 1863. Nela, o embaixador J. Watson Webb demonstrou o tamanho do desapontamento do seu governo. Em uma das passagens, o embaixador assim escreveu:

"(...) Quanto ao procedimento do presidente da Bahia e a sua justificação por S. Ex. são compatíveis com as idéias de justiça que tem o povo do Brasil, não compete ao abaixo assignado apreciar; mas não hesita elle em dizer que nos Estados-Unidos divergimos tão profundamente desta nova e extraordinária doutrina, que se pretende pela primeira vez inaugurar em um Estado civilisado, que o governo de Washington não deixará de attribuir o procedimento do governo imperial à uma premeditada recusa de justiça baseada em princípios tão insustentáveis, como que para augmentar a desaffeição que revela no próprio acto. (...)"

As lições do caso do Alabama originaram uma série de novas medidas, expedidas em 23 de junho, que regulavam os casos onde julgava-se violada a neutralidade. Além de reforçar as disposições contidas na circular de 1º de agosto de 1861 e incluir outras diretrizes, as novas instruções incluíam:

"(...) usar a força e, na falta ou insuficiência desta, protestar solenemente e energicamente contra o belligerante que, sendo advertido e intimado, não desistir da violação da neutralidade do império; ordenando às fortalezas e aos navios de guerra que atirem sobre o belligerante que acommetter o seu inimigo no nosso território, e sobre o navio armado que se dipuzer a sahir antes de decorrido o tempo marcado depois da sahida do navio pertencente ao belligerante contrário. (...)"

Soberania e dignidade ultrajadas

O CSS Florida voltaria a visitar o Brasil em 1864. O navio confederado, comandado pelo 1º tenente Morris, chegou ao porto de Salvador no dia 4 de outubro por volta das 21:00h. Seu objetivo era abastecer-se de carvão e provisões, além de realizar pequenos reparos no condensador. Logo depois de fundear na baía, um outro navio estrangeiro passou pelo Florida e perguntou pelo nome da embarcação confederada. Após o anúncio, um tripulante do outro navio respondeu que aquele era o HMS Curlew.

Litografia representando o CSS Florida na Ilha St. George (Bahamas) em 1863.
Na manhã seguinte não foi visto nenhum navio de guerra britânico, mas sim o vapor USS Wachusett da União fundeado ao lado do Florida. Após reunião com o presidente da província e o comandante da divisão naval do Império, foi sugerido ao tenente Morris que o mesmo manobrasse seu navio mais para perto da costa, para que este ficasse entre o corveta D. Januária da Marinha do Brasil e o navio norte-americano. E assim foi feito. O prazo inicial de 24 horas dado ao Florida acabou sendo estendido, pois um engenheiro brasileiro observou que o reparo no condensador levaria quatro dias.

Quando o oficial Bulloch (Marinha dos Estados Confederados) chegou à Inglaterra em 1861, não perdeu tempo em encontrar um estaleiro para construir o primeiro navio de guerra do Estados Confederados na Grã Bretanha. Entendimentos foram feitos com o estaleiro William C. Miller & Sons de Liverpool, com larga experiência na construção de navios com casco de madeira para a Royal Navy.

A construção propriamente dita teve início em junho de 1861. Boatos foram espalhados de que o navio era uma encomenda para uma empresa italiana de Palermo e seria batizado com o nome Oreto. Um verdadeiro jogo de espionagem e contra-espionagem passou a reinar em Liverpool, onde o cônsul norte-americano começou a duvidar da nacionalidade do Oreto.

Por volta de fevereiro de 1862, o Oreto já estava na água. Suspeitas sobre o real proprietário surgiram por parte do embaixador norte-americano. Na verdade, não havia nada no navio que indicasse que o mesmo seria armado. A situação recomendava a retirada do navio de Liverpool o mais breve possível.

Assim, em 22 de março o Oreto zarpou da Inglaterra. Seu destino oficial: Palermo, Sicília. Na verdade o navio seguiu para Nassau, onde tudo já estava programado. Nas Bahamas, o Oreto mudou de tripulação e recebeu um novo capitão. Após algumas dificuldades, o navio foi finalmente armado e teve sua bandeira confederada hasteada pela primeira vez na tarde do dia 17 de agosto daquele ano. Seu novo nome: CSS Florida (em substituição ao inicialmente previsto CSS Mannassas).

Pouco tempo depois a tripulação foi atingida por um surto de febre amarela e muitos faleceram. Seguindo para a costa do estado do Alabama com metade da tripulação, o navio foi atacado por nada menos que três unidades da marinha da União. Por falta de pessoal, o Floria não pode responder ao fogo e milagrosamente se arrastou até o continente.

O Florida só voltou novamente ao mar em janeiro de o ano seguinte. Sua velocidade permitiu que o mesmo rompesse o bloqueio naval imposto pela União e ficasse livre para realizar sua guerra aos mercantes norte-americanos, tornando-se um dos mais famosos e bem sucedidos navios dos confederados, capturando 37 embarcações.


Perto das 3:00 da madrugada do dia 7 de outubro o Wachusett deixou o seu ancoradouro. Mesmo sob a escuridão da madrugada, o navio da União foi observado pela tripulação que estava de guarda na corveta D. Januária. Ao passar pela popa da corveta brasileira o Wachusett foi intimado para que "desse fundo". A ordem foi ignorada e o navio seguiu na direção do Florida.

Por volta das 3:15h um dos tripulantes do Florida observou o Wachusett aproximando-se. O alerta geral foi dado, mas antes mesmo que a tripulação pudesse assumir "postos de combate", o navio norte-americano abalroou o Florida pela alheta de boreste, derrubando a balaustrada sobre o convés e arrancando o mastro da mezena. Seguiu-se um intenso tiroteio de mosquete após a colisão, acompanhado por um (ou dois?) disparo de peça de artilharia sobre o convés do Florida. O Wachusett recuou e exigiu a rendição do navio confederado. Houve recusa e novos disparos partiram do vapor da União, contra-atacado pelos tripulantes do Florida. Uma nova exigência foi feita e o tenente Porter (do navio confederado) respondeu que se rendia, mas sob condições. Ao ouvir o grito de "rendição", 15 tripulantes do Florida lançaram-se ao mar. Somente seis chegaram à praia. Os demais foram mortos por disparos provenientes do Wachusett. O comandante Collins enviou alguns escaleres para tomar a embarcações confederada. Rapidamente, um longo cabo foi amarrado ao Florida e o navio da União passou a rebocá-lo lentamente.


O USS Wachusett conforme originalmente lançado.
A confusão toda foi ouvida pela guarnição brasileira, mas em função da escuridão, nada foi visto. O comandante da divisão naval do Império mandou então um oficial brasileiro a bordo do Wachusett com o propósito de intimar o comandante norte-americano que os navios da divisão e as fortalezas de terra fariam fogo caso ele atacasse o Florida. O navio norte-americano não permitiu a entrada do oficial brasileiro. Porém, o comandante Collins disse-lhe do portaló que aceitava a intimação e que nada mais faria a não ser regressar para o seu ancoradouro. A intimação brasileira foi ratificada com um "tiro de peça com bala".

O Wachusett passou pela proa da corveta brasileira, seguindo para boreste. Tal foi a surpresa da guarnição brasileira quando, passado alguns momentos, observou o Florida movendo-se. Ficou claro que o vapor de guerra da União levava o navio confederado a reboque por um longo cabo.

Houve uma certa confusão após o flagrante desrespeito às ordens do comandante da divisão e às diretrizes de neutralidade estabelecidas pelo Brasil. A resposta brasileira foi dada somente no raiar do dia. A corveta D. Januária, puxada por uma canhoneira a vapor (segundo relato do próprio comandante Collins), deu caça ao Wachusett e sua presa. Percebendo que o seu navio estava sendo seguido, o comandante Collins ordenou que as velas fossem desfraldadas e o ganho de velocidade permitiu que a distância aumentasse gradualmente em relação aos seus perseguidores. Vendo a impossibilidade de alcançar o navio norte-americano, o comandante brasileiro desistiu da caçada. Um sentimento de frustração total se abateu sob a tripulação dos navios brasileiros.

Solução Diplomática

Como esperado, houve indignação popular quando a notícia espalhou-se pela cidade de Salvador e o consulado norte-americano naquela capital foi vítima de depredação. Mas o cônsul não se encontrava ali. Simplesmente abandonou o consulado e fugiu com o navio da União.

O embaixador norte-americano tratou rapidamente de "botar panos quentes" na situação. A quebra da neutralidade e a fuga do cônsul colocavam-no na defensiva. Primeiramente tratou-se de desvincular a atitude do comandante do Wachusett de uma possível articulação com um representante oficial do governo dos Estados Unidos. O cônsul foi tratado, num primeiro momento, como desconhecedor das intenções do comandante, que recebeu todo o ônus da ação.

A reação brasileira foi enérgica e tempestuosa. Em sua correspondência de 12 de dezembro de 1864, encaminhada ao secretário de estado norte-americano, a representação brasileira em Washington afirmou que "este fato não tem paralelo nos anais das guerras marítimas modernas ". Protestos também sugiram na imprensa dos Estados Unidos e de outras nações européias.

As reais desculpas e satisfações vieram oficialmente em 26 de dezembro daquele ano. O secretário de estado William Seward assim escreveu:

"(...) Está entendido, tereis a bondade de notar, que a resposta que ora se dá à vossa representação, funda-se exclusivamente na declaração de que a captura do Florida foi um acto não autorisado, illegal e indefensavel da força naval dos Estados-Unidos praticado em um paiz estrangeiro, com desprezo do seu governo estabelecido e devidamente reconhecido. (...)"

Contra- almirante Napoleon Collins.
O cônsul fora demitido. Havia ainda a necessidade de julgar o comandante Collins. Isto ocorreu em 7 de abril do ano seguinte, a bordo do vapor Baltimore. Perante um tribunal, o comandante Collins foi formalmente acusado de violar a jurisdição territorial de um país neutro. A acusação foi aceita e Collins recebeu sua sentença. Fora expulso da Marinha dos Estados Unidos.

Estranhamente, a sentença não foi cumprida de imediato. A verdade emergiu no ano seguinte. Numa carta datada de 17 de setembro de 1866, o próprio secretário da marinha (Gideon Welles) recusou o resultado do julgamento, inocentando o ex-comandante do Wachucett. Collins ainda teria uma carreira promissora dentro da US Navy, sendo promovido a contra-almirante em agosto de 1874. Só não galgou postos mais elevados porque faleceu tragicamente aos 61 anos em Lima, no Peru, enquanto comandava o esquadrão do Pacífico Sul.

Quanto ao CSS Florida, este seria devolvido ao Brasil, não fosse um pequeno incidente. O navio estava fundeado em Hamptom Roads sob vigilância e proteção naval quando subitamente afundou no dia 28 de novembro de 1864. De qualquer forma, o governo Imperial deixou este assunto em segundo plano, pois o Paraguai havia apreendido um navio brasileiro no Mato Grosso no dia 12 de novembro. No mês seguinte o país era invadido. Começava assim o maior e mais sangrento conflito armado do continente Sul-americano.

Reflexões sobre o caso
O caso do Wachusett não pode e não deve ser visto de forma individualizada. A atitude adotada de tratar os dois beligerantes parecia muito reconfortante no começo, mas foi a origem de toda a dor de cabeça. Obviamente que o primeiro navio confederado, quando aportou aqui, não tinha idéia real de como seria recepcionado. No entanto, o mesmo foi tratado de forma muito mais cordial do que deveria. A notícia se espalhou e o Brasil foi considerado um ponto de apoio para as unidades confederadas, caso estas necessitassem.

Os abusos começaram a surgir em 1863. Primeiramente o CSS Alabama passou a utilizar o território nacional como base para suas atividades militares. As ações ocorriam sob os olhares do comandante do presídio de Fernando de Noronha que, ou compactuava com o confederado ou desconhecia totalmente a noção de soberania territorial e seus deveres como autoridade constituída naquele rincão do Império. Pode-se até acusar o mesmo de ter sido subornado pelo comandante do Alabama (uma prática secular neste país), mas não são conhecidas provas contra o comandante do presídio. De qualquer forma sua atitude, ou a ausência dela, foi um desserviço ao país.

Pior ainda foi a atitude do presidente da Bahia. Conhecendo as acusações que pesavam sobre o navio confederado e de posse do inquérito do presidente de Pernambuco, nada fez. Ainda permitiu que o fora da lei permanecesse por duas semanas no porto de Salvador, gozando da hospitalidade e das benesses da capital baiana. Na mesma época o CSS Georgia recebeu munição dentro da baía de Todos os Santos, cometendo mais um desrespeito às diretrizes do governo Imperial. Provavelmente o presidente da província da Bahia não tinha noção de que uma guerra de grandes proporções estava em andamento no norte do continente americano e que essa guerra tinha desdobramentos mundiais e implicâncias geopolíticas.

Todas estas ações foram observadas e receberam o devido protesto por parte dos representantes da União no Brasil. Ficou a imagem de que aqui vale tudo e não há respeito nem pelas próprias leis. Muito provavelmente todo este "relaxamento" tenha contribuído para que, no ano seguinte, o Wachusett atuasse da forma como agiu. É líquido e certo que o comandante Collins foi instruído pelo cônsul norte-americano de como deveria proceder. O cônsul, conhecendo o Brasil, suas autoridades e ainda respaldado pela ausência de ações concretas no caso do Alabama, do Georgia e do Florida, determinou uma ação tão ousada quanto arriscada.

Quanto à resposta militar brasileira, ficou evidente que a divisão naval do nordeste, formalmente a 2ª Divisão, não possuía meios navais para perseguir e combater o Wachucett. Em 1863 a corveta D. Januária, nau capitânia e arvorando o pavilhão do comandante da divisão, era uma embarcação ultrapassada e movida unicamente por velas. Foi necessário que um vapor rebocasse a mesma para caçar o Wachusett. O quadro a seguir resume a força da 2ª Divisão Naval da Marinha do Brasil por volta de 1863.

Cabe aqui um parênteses. Interessante observar que o capitão do Florida foi muito ingênuo quando o navio que passou por ele na noite do dia 4 de outubro de 1863 se auto denominou HMS Curlew. Era público e notório que Brasil e Grã Bretanha estavam com os laços cortados e que o Curlew, um dos navios que participou do "bloqueio naval" no ano novo de 1863, não era bem vindo. Além disso, os dois navios eram muito distintos um do outro, sendo que o vapor norte-americano possuía praticamente o dobro do deslocamento.

O desenrolar do julgamento do comandante Collins foi uma verdadeira atitude paternalista de país de segunda classe, colocando em dúvida a real "ação solitária" do ex-comandante do Wachusett. É possível que o governo realmente tenha compactuado com a ação, pois nada justificaria ignorar a sentença desferida pelo tribunal e, posteriormente, promover o oficial até o generalato. Sobre a investigação do afundamento do CSS Florida, nada mais ouviu-se sobre o assunto. Muito provavelmente o senhor Gideon Welles, o mesmo que rasgou o sentença do comandante Collins, tenha mandado afundar o navio para que o mesmo não voltasse para o Brasil e fosse reclamado pelos confederados.

Em função de todos os acontecimentos lamentáveis que esta situação gerou, não só do lado brasileiro, seria reconfortante e agradável simplesmente esquecer os vexames e os desmandos. Mas não. Ela deve ser novamente estudada, reavaliada e relembrada para que possamos conduzir melhor nossas ações do presente e programar o futuro.




fonte: naval.com.br
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Da capital, já morei entre verde e bichos, na lida com animais e plantas: anos de injeção, espinho de ouriço, berne, parto de égua e curva de nível, viveiros, mudas, onde encontrei tempo para lecionar inglês, alfabetizar adultos e ler livros, na solidão do mato. 

Paixões se sucederam e convivem até hoje: Contabilidade, Economia, Arquitetura (IMES, MACK), a chácara e, afinal, o Direito (FDSBC, cursos e pós graduações). No Judiciário desde 2005, planto, replanto, reciclo, quebro paredes, reconstruo, estudo, escrevo e poetizo, ao som de passarinhos, que cantam nossa liberdade.

Não sou da cidade, tampouco do campo. Aprendiz, tento captar o que a vida oferece, para que o amanhã seja melhor. Um mundo melhor, sempre.

Agora em uma cidade mágica, em uma casa mágica, na qual as coisas se transformam e ganham vida; mais e mais vida. Minha cidade-praia-paraíso, Itanhaém.

Nesta casa de espaços amplos e um belo quintal, que jamais é a mesma do dia anterior, do minuto anterior (pois a natureza cuida do renovar a cada instante o viço, as cores, flores, aromas e sabores) retomei o gosto pelo verde, por releituras de espaços e coisas. Nela planto o que seja bom de comer ou de ver (ou deixo plantado o que Deus me trouxe), colho, podo, cozinho os frutos da terra, preparo conservas e invento pratos de combinações inusitadas, planejo, crio, invento, pinto e bordo... sonho. As ideias brotam como os rebentos e a vida mostra-se viva, pulsante.

Aqui, em paz, retomo o fazer miniaturas, componho terrários que encantam, mensagens de carinho representadas em pequenas e delicadas obras. 

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Maria da Gloria Perez Delgado Sanches

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